A 32ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública de CampoGrande, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), registrou uma Notícia de Fato para apurar possíveis falhas na assistência médico-hospitalar prestada à bebê Ann Laura Insararalde de araujo que morreu após passar por três unidades de saúde em Campo Grande.
Segundo o MPMS, nesta fase inicial, foram solicitadas informações complementares ao representante da Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul (AVEM/MS), Valdemar Moraes de Souza, responsável por encaminhar a notícia ao órgão.Também foram determinadas diligências junto à Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau), à Secretaria de Estado de Saúde (SES), à Fundação de Serviços de Saúde de Mato Grosso do Sul (Funsau), ao Hospital do Câncer, ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM/MS) e à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca).O Ministério Público informou que o procedimento tramita com acesso restrito e permanece em fase de análise preliminar. Até o momento, não há conclusão sobre a existência de irregularidades ou eventual responsabilização dos envolvidos.
Em nota, o Hospital de Câncer Alfredo Abrão (HCAA) informou que recebe pacientes pelo Sistema de Regulação. A instituição explicou que a bebê foi internada em 10 de outubro, às 15h05, na ala de pediatria clínica não oncológica, criada em parceria com a prefeitura para ampliar as vagas infantis.Segundo a unidade de saúde, a equipe prestou todos os atendimentos necessários. Diante da evolução do quadro, o hospital solicitou a transferência para o Hospital Regional às 17h20. A mudança ocorreu por volta das 18h para que a paciente continuasse o tratamento em uma UTI pediátrica. O HCAA esclareceu que tem 24 leitos clínicos infantis, mas não possui UTI pediátrica.A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou, inicialmente, que não comentaria o caso, sob a justificativa de que “não fornece informações individualizadas sobre pacientes à imprensa ou a terceiros, ainda que de forma indireta”. Depois, a pasta enviou uma nota na qual afirmou que todas as ações seguiram os protocolos vigentes, com o objetivo de garantir a assistência necessária, conforme a evolução clínica da paciente.
A Sesau acrescentou que os registros demonstram que as solicitações foram encaminhadas aos serviços de referência e submetidas aos processos de avaliação e aceite, em conformidade com os fluxos regulatórios e critérios. Informou ainda que os prontuários médicos e os relatórios técnicos serão acompanhados e analisados.Segundo a mãe da bebê, Ana Maria Morel Insarralde, a criança apresentou febre e vômitos e passou por três unidades de saúde antes de morrer:
- UPA Universitário: recebeu o primeiro atendimento.
- Hospital de Câncer: tomou medicamento, mas apresentou piora.
- Hospital Regional: foi intubada e encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu.
De acordo com o atestado de óbito, a morte foi causada por insuficiência respiratória, choque séptico, pneumonia, septicemia, coagulação intravascular e hemorragia disseminada das vias respiratórias.
No boletim de ocorrência, a mãe relatou possíveis falhas na assistência, incluindo problemas na administração de medicamentos, falta de oxigênio e ausência de atendimento adequado à filha.
Primeiros atendimentos e transferência para o Hospital de Câncer
De acordo com Ana Maria, Anna Laura foi levada à UPA Universitário em 7 de outubro, quando recebeu uma receita de medicamentos. Na ocasião, um exame de raio-X identificou uma mancha no pulmão da bebê, mas ela recebeu alta.
No dia 10 de outubro, a família voltou à unidade. A criança apresentava febre alta, vômitos e diarreia, sem melhora após o uso dos medicamentos. Depois de receber novas medicações e passar por exames laboratoriais, foi transferida para o Hospital de Câncer.
A mãe relatou que, durante a transferência, a médica responsável informou que os exames da bebê haviam sido extraviados. Ana Maria afirmou, porém, que os testes foram realizados e que a família conseguiu acessar os resultados após a morte da menina.Ao chegar ao Hospital de Câncer, Anna Laura estava sonolenta e recebia oxigênio. Segundo a mãe, após a administração de um medicamento, a boca da criança ficou amarelada e apresentou pontos escuros.
Ao perceber a alteração, Ana Maria procurou uma enfermeira, que chamou o médico de plantão. O profissional suspendeu o medicamento e informou que a bebê precisava ser transferida para um hospital com UTI, pois o quadro era grave e a unidade não dispunha dessa estrutura.Anna Laura chegou ao Hospital Regional por volta das 18h30. Segundo a mãe, a criança foi levada à sala vermelha e intubada, mas não apresentou melhora. Em seguida, o médico informou que ela seria encaminhada ao centro cirúrgico para a colocação de um acesso e a realização de uma drenagem.
Durante o deslocamento, segundo o relato de Ana Maria, a equipe retirou o balão de oxigênio para conectá-lo a outro aparelho, mas não conseguiu ligar o novo equipamento imediatamente. A bebê permaneceu intubada e, conforme a mãe, ficou temporariamente sem receber oxigênio.
A equipe médica recorreu à ventilação manual e, posteriormente, conseguiu ligar o aparelho. Durante o trajeto, no entanto, o equipamento parou de funcionar novamente. De acordo com a mãe, os profissionais comentaram entre si que a máquina operava em modo de “gambiarra”. A ventilação manual precisou ser retomada até que o fornecimento de oxigênio fosse restabelecido.Após a cirurgia, Anna Laura voltou para a UTI. Segundo a mãe, o médico informou que o quadro era grave, com evolução de pneumonia, sangramento no pulmão, desidratação e anemia.
A equipe administrou sangue e adrenalina, mas a bebê não apresentou resposta ao tratamento. Os batimentos cardíacos e a saturação de oxigênio caíram. Os profissionais tentaram reanimá-la, mas a criança morreu na madrugada do dia 11 de outubro.









