O Dia Mundial da Poesia, celebrado em 21 de março, foi criado pela UNESCO em 1999 para valorizar a diversidade linguística e incentivar a troca cultural. A poesia é uma das formas mais antigas e ricas de expressão artística, proporcionando o desenvolvimento da linguagem, da imaginação e da empatia, e pode ser uma ferramenta poderosa para despertar o interesse pela leitura.
| Clique aqui para baixar a sugestão de imagem. Crédito: Freepik. |
O mês de março celebra a trajetória de mulheres que moldaram a literatura brasileira, refletindo experiências, perspectivas e linguagens diversas. A poesia dessas autoras revela a diversidade de experiências, perspectivas e linguagens, refletindo a construção de identidades femininas, sociais e culturais ao longo da história.
“Reconhecer o trabalho dessas poetisas é essencial para que novas gerações tenham referências de criatividade, coragem e sensibilidade literária. Muitas dessas mulheres enfrentam barreiras sociais e culturais para publicar suas obras e hoje suas vozes precisam ser revisitadas e celebradas”, afirma Aline Souza Silva Santos, bibliotecária do Brazilian International School – BIS (São Paulo/SP).
Cada obra publicada por uma escritora contribui para ampliar os horizontes da leitura e da reflexão sobre gênero, sociedade e arte. Segundo Aline, “a poesia dessas mulheres não é apenas expressão artística, mas também resistência, memória e inspiração. Incentivar a leitura de suas obras ajuda a manter viva a história da literatura e a reconhecer a importância de cada contribuição feminina no cenário cultural do país”.
Para celebrar o Dia Mundial da Poesia e incentivar a leitura, Aline Souza Silva Santos lista 19 poetisas brasileiras e suas obras mais importantes, que merecem ser conhecidas, reconhecidas e lidas pelas antigas e novas gerações.
1. Adalgisa Nery (Rio de Janeiro/RJ, 1905 – Rio de Janeiro/RJ, 1980): foi poetisa, jornalista e deputada, figura marcante do modernismo brasileiro, cuja vida intensa — incluindo o casamento com o pintor Ismael Nery e posterior atuação política— atravessou arte e militância. Sua obra poética, de forte teor existencial, explora amor, perda, espiritualidade e solidão, com linguagem lírica e densa. Sua obra foi inicialmente celebrada por nomes como Mário de Andrade, mas posteriormente passou por períodos de menor visibilidade, sendo hoje objeto de reavaliação crítica. Entre seus livros mais conhecidos estão Poemas (1937) e A Mulher Ausente (1940), referências centrais de sua produção.
2. Adélia Prado (Divinópolis/MG, 1935): é poetisa, professora e escritora. Uma das vozes mais singulares da poesia contemporânea, destaca-se pela celebração do cotidiano, da fé, do amor e da experiência feminina em linguagem simples, lírica e profundamente espiritual, situando-se entre os grandes nomes da poesia em língua portuguesa. Sua poesia foi inicialmente reconhecida com o apoio de Carlos Drummond de Andrade e ganhou notoriedade crítica e popular, culminando em prêmios como o Camões e o Machado de Assis. Entre suas obras mais conhecidas estão Bagagem (1975) e O Coração Disparado (1978), este último premiado com o Jabuti e considerado marco de sua produção poética.
3. Ana Cristina Cesar (Rio de Janeiro/RJ, 1952 – Rio de Janeiro/RJ, 1983): foi poetisa, tradutora e crítica literária, uma das principais vozes da chamada poesia marginal dos anos 1970, cuja obra combina lirismo confessional, fragmentação, intertextualidade e diálogo com a tradição moderna, explorando temas como intimidade, desejo, escrita e identidade feminina. Com circulação inicial em edições independentes, consolidou-se como referência da poesia contemporânea brasileira pela linguagem coloquial e sofisticada ao mesmo tempo. Entre seus livros mais conhecidos estão A Teus Pés (1982), considerado marco de sua produção, e Inéditos e Dispersos (1985).
4. Angélica Freitas (Pelotas/RS, 1973): é uma das mais vibrantes e inovadoras vozes da poesia brasileira contemporânea, cuja obra se caracteriza pelo humor ácido, crítica social e inventividade formal. Sua obra de estreia, Um útero é do tamanho de um punho (2012), já lhe rendeu circulação internacional e tradução em vários países, e alcançou amplo impacto crítico e de público com livro que reafirma o feminino e questiona, com ironia e intensidade, imagens sociais do que é ser mulher no mundo atual.
5. Auta de Souza (Macaíba/RN, 1876 – Natal/RN, 1901): foi poetisa simbolista, mulher preta e uma das vozes pioneiras da literatura potiguar e brasileira, cuja obra se destaca pela profunda religiosidade, misticismo e lirismo marcado pela dor e pela contemplação espiritual. Órfã ainda na infância, morreu precocemente de tuberculose aos 24 anos, tendo encontrado na poesia um espaço de expressão sensível e transcendência. Seu único livro publicado em vida, Horto (1900), reúne versos de musicalidade delicada e intensa introspecção, consolidando-a como nome fundamental do simbolismo no Brasil e referência histórica para a presença feminina e negra na poesia nacional.
6. Cecília Meireles (Rio de Janeiro/RJ, 1901 – Rio de Janeiro/RJ, 1964): foi uma das mais consagradas poetisas brasileiras, cuja voz lírica e sensível atravessou o modernismo com profundidade espiritual, musicalidade e reflexão sobre tempo, memória e transcendência. Iniciou sua carreira ainda jovem, destacando-se não apenas na poesia, mas também como jornalista, professora e cronista cultural, contribuindo para a circulação da literatura em diferentes espaços sociais e educativos. Sua obra, marcada por imagens delicadas e ritmo harmônico, recebeu amplo reconhecimento crítico e popular, influenciando gerações de leitores e escritores. Entre seus livros mais emblemáticos estão Viagem (1939), expressão madura de sua poética introspectiva, e Romanceiro da Inconfidência (1953), que reinterpreta episódios históricos com lirismo e intensidade temática, consolidando-a como um dos pilares da poesia em língua portuguesa.
7. Conceição Evaristo (Belo Horizonte/MG, 1946 – viv.): é poetisa, romancista, ensaísta e uma das mais influentes vozes da literatura afro-brasileira contemporânea, cuja obra resgata ancestralidade, memória e experiência negra com profundidade estética e compromisso social. Formada em sociologia e mestre em literatura, Evaristo desenvolveu o conceito de “escrevivência” — uma escritura que entrelaça vida, memória e resistência — para dar voz às histórias de mulheres negras e às experiências marginalizadas no Brasil. Sua poesia e prosa articulam linguagem sensível e engajamento político, reafirmando identidades historicamente silenciadas e ampliando os cânones literários nacionais. Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008) é sua obra poética destacada, uma coletânea de poemas que explora memoriais pessoais e coletivos, identidade negra e resistência social.
8. Cora Coralina (Goiás Velho/GO, 1889 – Goiânia/GO, 1985): foi poetisa e contista cuja trajetória literária ímpar reafirma o poder da voz poética que floresce apesar das adversidades. Publicou seu primeiro livro de poemas Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965) aos 75 anos, traduzindo em versos a vivência do cotidiano interiorano, a memória das ruas de Goiás Velho, o imaginário popular e a resistência da mulher simples diante das durezas da vida. Antes de ser reconhecida nacionalmente, trabalhou como doceira e gestora de pequenos negócios, experiência que enriqueceu sua escrita com uma sensibilidade humana singular, que combina simplicidade, profundidade e consciência social. Sua obra, revisitadas por várias gerações e amplamente celebrada pela crítica e pelo público, transformou-a em símbolo de perseverança literária e em uma das grandes vozes da poesia brasileira do século XX. Entre seus títulos mais conhecidos estão Estórias da Casa Velha (1967) e Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha (1976).
9. Dora Ferreira da Silva (Conchas/SP, 1918 – São Paulo/SP, 2006): foi poetisa, tradutora e ensaísta de grande relevância na poesia brasileira do século XX, cuja obra se caracteriza por rigor formal, profundidade simbólica e diálogo com mitologia, filosofia e espiritualidade. Figura central de um círculo literário moderno em São Paulo, desenvolveu uma escrita que combina erudição e introspecção, ampliando os horizontes da experiência poética brasileira com imagens complexas e reflexão existencial. Também tradutora de poesia e ensaística, sua produção contribuiu para aproximar leitores brasileiros de correntes europeias contemporâneas, reafirmando a dimensão internacional de sua poética. Entre seus livros mais significativos estão Andanças (1970) e Entreatos (1978), obras que consolidaram sua voz singular no cânone literário nacional e influenciaram gerações de poetas e leitores.
10. Emília Freitas (Aracati/CE, 1855 – Manaus/AM, 1908): é um nome fundamental da literatura brasileira. Autora de A Rainha do Ignoto (1899), considerada uma das primeiras obras de literatura fantástica do país, antecipou debates sobre emancipação feminina e justiça social em uma narrativa ousada para seu tempo. Também publicou um único livro de poemas, Canções do Lar (1891), de tom lírico e sensível. Não há registro fotográfico conhecido da autora, o que reforça o caráter enigmático de sua trajetória – e também uma ausência material que contribuiu para, durante décadas, sua figura ter permanecido quase apagada da memória literária nacional. Hoje, sua obra vem sendo redescoberta, consolidando a escritora como pioneira e voz essencial na ampliação do cânone literário nacional.
11. Francisca Júlia (Xiririca/SP, 1871 – São Paulo/SP, 1920): foi poetisa parnasiana de grande destaque no final do século XIX e início do século XX, cuja obra se caracteriza pela elegância formal, precisão técnica e expressividade estética. Integrante do movimento parnasiano no Brasil, destacou-se pelo domínio do soneto, pela construção de imagens refinadas e pela busca de perfeição métrica, conquistando reconhecimento entre seus pares em uma época em que poucas mulheres alcançavam visibilidade no meio literário. Seu livro mais representativo, Mármores (1895), consolidou sua reputação como uma das vozes femininas mais significativas do parnasianismo brasileiro, influenciando gerações de poetas que seguiram a tradição formalista. Ela também foi tradutora e colaboradora de periódicos literários, contribuindo para a circulação cultural e artística de sua época.
12. Gilka Machado (Rio de Janeiro/RJ, 1893 – Rio de Janeiro/RJ, 1980): foi poetisa, jornalista e uma das figuras mais audaciosas da poesia simbolista brasileira, cuja obra rompeu com as convenções morais de sua época ao tematizar o desejo, o corpo e a subjetividade feminina com intensidade e originalidade. Iniciou sua carreira ainda jovem, publicando em jornais e revistas literárias, e tornou-se uma voz central no cenário cultural do início do século XX, combinando lirismo apaixonado com crítica social e autonomia estética. Seu livro mais conhecido, Cristais Partidos (1915), reúne poemas marcados por imagens fortes e linguagem vibrante, que celebram a experiência feminina sem subserviência. Além de sua produção poética, Gilka Machado teve atuação destacada no jornalismo e na cultura carioca, sendo lembrada como uma das vozes pioneiras da mulher na literatura e na imprensa brasileiras.
13. Henriqueta Lisboa (Lambari/MG, 1901 – Belo Horizonte/MG, 1985): foi poetisa, ensaísta e tradutora cuja obra ocupa lugar de destaque na literatura brasileira do século XX, marcada por lirismo introspectivo, delicadeza sensorial e reflexão sobre a condição humana. Desde seus primeiros versos, Henriqueta desenvolveu uma poesia de grande densidade, que articula espiritualidade, memória e experiência cotidiana com linguagem depurada e musicalidade fina, consolidando-se como uma das vozes mais sensíveis e duradouras do modernismo tardio. Publicou diversos livros de poemas ao longo de sua carreira, entre eles Prisioneira da Noite (1941) e Poemas Escolhidos (1976), obras que reafirmam seu compromisso com a intensidade poética e com a ampliação das possibilidades expressivas da língua. Sua presença em periódicos literários e antologias reforça a importância de sua contribuição à cena literária brasileira e à tradição lírica do país.
14. Hilda Hilst (Jaú/SP, 1930 – Campinas/SP, 2004): foi uma das escritoras mais importantes e provocativas da literatura brasileira do século XX, atuando como poetisa, dramaturga e romancista. Sua poesia aborda temas como amor, desejo, morte, espiritualidade e os limites da existência humana, sempre com intensidade emocional e forte questionamento sobre a vida e Deus. Em livros como Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), construiu uma linguagem marcante, que mistura sensibilidade, erotismo e reflexão. Embora tenha sido mais reconhecida pelo grande público após sua morte, hoje é considerada uma autora fundamental da literatura brasileira, celebrada no Brasil e no exterior pela coragem e originalidade de sua obra.
15. Lya Luft (Santa Cruz do Sul/RS, 1938 – Porto Alegre/RS, 2021): foi poetisa, romancista e ensaísta referência na literatura brasileira, cuja obra explorou com sensibilidade temas como amor, identidade, memória e relações familiares. Formada em letras e com ampla trajetória acadêmica, Lya começou publicando poesia, destacando-se pela clareza e profundidade emocional, e alcançou grande público também com romances e crônicas que combinam reflexão íntima e lirismo. Ao longo de sua carreira, publicou dezenas de títulos, entre eles Canções de Limiar (1964), livro que oferece um olhar poético sobre os limites do existir. Reconhecida por sua capacidade de falar com leitores de diferentes gerações, Lya Luft permanece como uma das vozes mais queridas e influentes da literatura em língua portuguesa.
16. Neide Archanjo (São Paulo/SP, 1940 – São Paulo/SP, 2021): foi poetisa, crítica literária e tradutora, reconhecida como uma voz sensível e consistente da poesia brasileira contemporânea. Sua obra é marcada por lirismo introspectivo, reflexão existencial e atenção às imagens do cotidiano, com linguagem precisa e delicada. Com um legado celebrado por sua sensibilidade e compromisso com a difusão da palavra poética, entre seus livros destaca-se Calendário do Corpo (1988), que consolidam sua presença no cenário literário nacional. Em 1969, foi uma das idealizadoras do projeto “Poesia na Praça”, realizado na Praça da República, em São Paulo, onde poemas eram expostos e lidos ao ar livre, aproximando a literatura do público e democratizando o acesso à poesia.
17. Olga Savary (Belém/PA, 1933 – Teresópolis/RJ, 2020): foi poetisa, crítica literária e tradutora, reconhecida como uma das vozes mais marcantes da poesia brasileira do século XX. Sua obra transita entre o lirismo, o erotismo e a reflexão existencial, com linguagem imagética e musical, explorando temas como desejo, corpo e memória. Foi a primeira mulher a publicar haikais no Brasil, ampliando o diálogo da poesia brasileira com a tradição japonesa, e tornou-se referência por sua contribuição à literatura erótica feminina. Também se destacou como tradutora de importantes autores hispano-americanos, fortalecendo pontes culturais na América Latina. Espelho Provisório (1971) é destacado como marco de sua carreira e consolidou seu reconhecimento na literatura brasileira, mostrando sua sensibilidade lírica e a mistura de influências modernistas com experimentalismo poético.
18. Orides Fontela (São João da Boa Vista/SP, 1940 – Campos do Jordão/SP, 1998): foi poetisa de voz singular na literatura brasileira, cuja obra se notabiliza pela concisão, profundidade filosófica e busca de sentido nos limites da linguagem. Com uma escrita austera e compacta, seus poemas exploram questões existenciais como tempo, silêncio, identidade e o lugar da palavra na construção do mundo, criando uma lírica que é ao mesmo tempo reflexiva e intensa. Reconhecida por seu rigor estético e originalidade, Fontela tem sido celebrada postumamente como uma das grandes referências poéticas do Brasil. Entre suas obras mais representativas estão Transposição (1969) e Teia (1991), livros que reafirmam sua contribuição profunda e duradoura à poesia em língua portuguesa.
19. Zila Mamede (Nova Palmeira/PB, 1928 – Natal/RN, 1985): foi poetisa, professora e uma das vozes mais significativas da literatura nordestina do século XX, cuja obra combina lirismo introspectivo com atenção à vida cotidiana e ao universo feminino. Estreou na cena literária ainda jovem e desenvolveu uma poesia marcada por sensibilidade, clareza de expressão e reflexão sobre amor, tempo e memória, consolidando sua presença no cenário cultural do Rio Grande do Norte e do Brasil. Além de sua produção poética, atuou intensamente como educadora, contribuindo para a formação de leitores e a difusão da cultura literária na região. Entre seus livros mais conhecidos está Rosa de Pedra (1953), obra que reafirma sua capacidade de unir profundidade emocional e linguagem acessível, tornando-a uma referência duradoura da poesia nordestina e brasileira.
A especialista: Aline Souza Silva dos Santos é bibliotecária, formada pela UNIFAI (2010) e pós-graduada pela FESPSP em Gestão da Informação Digital. Atuou por dez anos na Biblioteca da Aliança Francesa de São Paulo e, atualmente, é bibliotecária no Colégio BIS, onde desenvolve projetos de incentivo à leitura e acredita na biblioteca como um espaço vivo de aprendizagem e formação de leitores sensíveis, críticos e reflexivos.
Sobre a ISP – International Schools Partnership
A International Schools Partnership (ISP) é um grupo internacional presente em 25 países, com 109 escolas privadas e mais de 92.500 estudantes em todo o mundo. A ISP apoia e capacita as instituições de ensino, desenvolvendo novos padrões de excelência em educação, para transformar as escolas em referência em suas comunidades locais e no setor educacional global. O aluno da ISP está no centro da jornada de aprendizagem e é preparado para o futuro, tendo acesso a educadores apaixonados e experientes, e ferramentas para que adquira confiança, conhecimento e habilidades; e aprimore seu aprendizado acadêmico, pessoal, social e emocional em um ambiente seguro, acolhedor e inclusivo. Para mais informações, acesse o site.









